Entre a denúncia e o espelho: as contradições de quem descobre a crise

27/03/2026

Quem ontem conduzia em silêncio, hoje denuncia 

a tempestade que ajudou a formar.

Por Franzé de Sousa

Há textos que surgem como alertas, quase manifestos, carregados de indignação e senso de urgência. Falam em crise, em desvios de rota, em riscos históricos. Mas, quando lidos com atenção mais demorada, revelam também algo menos evidente: a memória curta de quem os escreve.

O enredo é conhecido. Para este caso, podemos recorrer à metáfora de um grande barco, construído ao longo de décadas por muitas mãos, que começa a enfrentar águas turbulentas. Parte da tripulação denuncia que o leme foi capturado, que a rota está sendo desviada e que há acordos estranhos sendo feitos no convés. O diagnóstico, em alguma medida, procede. O problema está em quem, agora, aponta o dedo.

Porque não faz tanto tempo assim que esses mesmos marinheiros ocupavam a cabine de comando.

Há, ainda, um movimento recente que aprofunda essa contradição: a possibilidade de abandono da embarcação justamente por quem, até pouco tempo, se comportava como sua principal comandante. Quando detinha força e maioria, agia como se o leme lhe pertencesse por direito natural, pouco afeita ao contraditório e convencida de que sua rota era a única possível. Agora, diante da perda de influência e do redesenho das correlações internas, surge a ameaça de desembarque como gesto político. Não como ruptura programática consistente, mas como instrumento de pressão — quase um ultimato lançado ao restante da tripulação. O que antes era exercício de autoridade transforma-se, no presente, em discurso de vítima. E, nesse movimento, a crítica à crise corre o risco de se confundir com tentativa de chantagem política: ou se restabelece o antigo lugar de comando, ou se abandona o barco em meio à tempestade.

No período em que esteve no comando, o barco não era exatamente um espaço aberto ao diálogo. As assembleias no convés eram raras e, quando aconteciam, muitas vozes já sabiam, de antemão, que não seriam ouvidas. O mapa da navegação não era discutido coletivamente; era desenhado em salas fechadas, longe do barulho do mar e da inquietação da base da tripulação.

Quem tentava sugerir outra rota era visto como alguém que atrapalhava a viagem. Aos poucos, o que deveria ser uma embarcação guiada por muitos passou a funcionar como um iate conduzido por poucos. A crítica, que deveria ser combustível, virou ruído indesejado.

E assim, sem que muitos percebessem, o barco foi mudando por dentro.

A tripulação, antes formada por navegadores ativos, foi sendo convertida em passageiros disciplinados. Em vez de discutir o destino, passou a cumprir tarefas. Em vez de construir coletivamente, passou a operar em função de um projeto concentrado, onde o nome estampado na proa importava mais que a força do conjunto.

Não se tratava apenas de conduzir o barco — tratava-se de garantir quem aparecia como comandante.

Agora, com o mar revolto e o controle do leme já não sendo o mesmo, surge o discurso da tempestade. Fala-se em desvios graves, em perda de identidade, em necessidade de resgatar o espírito original da embarcação. Tudo isso é válido. Tudo isso importa.

Mas falta uma peça essencial nessa narrativa: o espelho.

Porque parte das correntes que hoje empurram o barco para longe também foi formada naquele período anterior. O isolamento das decisões, o distanciamento da tripulação, a substituição do debate pelo alinhamento automático — tudo isso não nasceu agora. Foi sendo construído, camada por camada, inclusive por aqueles que hoje denunciam a deriva.

Há, portanto, uma contradição difícil de ignorar: quem antes fechava as portas da cabine agora reclama da falta de acesso ao comando.

Isso não invalida o alerta atual. O mar está, de fato, agitado. Há forças externas tentando sequestrar a embarcação, há interesses cruzados no horizonte e há riscos reais de naufrágio político. Mas o diagnóstico só será completo quando incluir a própria responsabilidade na construção desse cenário.

Sem isso, a crítica perde densidade e se aproxima mais de uma disputa por espaço no convés do que de um esforço real de reorganizar a viagem.

O desafio que se impõe não é apenas retomar o leme, mas reaprender a navegar coletivamente. Isso exige mais do que apontar erros alheios — exige reconhecer os próprios.

Porque, no fim das contas, nenhum barco se perde apenas por causa da tempestade. Muitas vezes, ele já vinha se desviando bem antes — só que em silêncio, com o mar ainda calmo e poucos dispostos a questionar a direção.

Este texto é uma reflexão dirigida àqueles e àquelas que se indignam com o destino de um certo barco, identificado pelo prefixo PT13. 

Um abraço fraterno deste marinheiro, que embarcou ainda nos primeiros ventos, em 1987, e que também navegou sob o comando da mesma capitã, conhecendo de perto tanto os dias de mar aberto quanto os silêncios da cabine.


Share
Crie seu site grátis! Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também! Comece agora