Entre a denúncia e o espelho: as contradições de quem descobre a crise

Quem ontem conduzia em silêncio, hoje denuncia
a tempestade que ajudou a formar.
Por Franzé de Sousa
Há textos que surgem como alertas, quase manifestos, carregados de indignação e senso de urgência. Falam em crise, em desvios de rota, em riscos históricos. Mas, quando lidos com atenção mais demorada, revelam também algo menos evidente: a memória curta de quem os escreve.
O enredo é conhecido. Para este caso, podemos recorrer à metáfora de um grande barco, construído ao longo de décadas por muitas mãos, que começa a enfrentar águas turbulentas. Parte da tripulação denuncia que o leme foi capturado, que a rota está sendo desviada e que há acordos estranhos sendo feitos no convés. O diagnóstico, em alguma medida, procede. O problema está em quem, agora, aponta o dedo.
Porque não faz tanto tempo assim que esses mesmos marinheiros ocupavam a cabine de comando.
Há, ainda, um movimento recente que aprofunda essa contradição: a possibilidade de abandono da embarcação justamente por quem, até pouco tempo, se comportava como sua principal comandante. Quando detinha força e maioria, agia como se o leme lhe pertencesse por direito natural, pouco afeita ao contraditório e convencida de que sua rota era a única possível. Agora, diante da perda de influência e do redesenho das correlações internas, surge a ameaça de desembarque como gesto político. Não como ruptura programática consistente, mas como instrumento de pressão — quase um ultimato lançado ao restante da tripulação. O que antes era exercício de autoridade transforma-se, no presente, em discurso de vítima. E, nesse movimento, a crítica à crise corre o risco de se confundir com tentativa de chantagem política: ou se restabelece o antigo lugar de comando, ou se abandona o barco em meio à tempestade.
No período em que esteve no comando, o barco não era exatamente um espaço aberto ao diálogo. As assembleias no convés eram raras e, quando aconteciam, muitas vozes já sabiam, de antemão, que não seriam ouvidas. O mapa da navegação não era discutido coletivamente; era desenhado em salas fechadas, longe do barulho do mar e da inquietação da base da tripulação.
Quem tentava sugerir outra rota era visto como alguém que atrapalhava a viagem. Aos poucos, o que deveria ser uma embarcação guiada por muitos passou a funcionar como um iate conduzido por poucos. A crítica, que deveria ser combustível, virou ruído indesejado.
E assim, sem que muitos percebessem, o barco foi mudando por dentro.
A tripulação, antes formada por navegadores ativos, foi sendo convertida em passageiros disciplinados. Em vez de discutir o destino, passou a cumprir tarefas. Em vez de construir coletivamente, passou a operar em função de um projeto concentrado, onde o nome estampado na proa importava mais que a força do conjunto.
Não se tratava apenas de conduzir o barco — tratava-se de garantir quem aparecia como comandante.
Agora, com o mar revolto e o controle do leme já não sendo o mesmo, surge o discurso da tempestade. Fala-se em desvios graves, em perda de identidade, em necessidade de resgatar o espírito original da embarcação. Tudo isso é válido. Tudo isso importa.
Mas falta uma peça essencial nessa narrativa: o espelho.
Porque parte das correntes que hoje empurram o barco para longe também foi formada naquele período anterior. O isolamento das decisões, o distanciamento da tripulação, a substituição do debate pelo alinhamento automático — tudo isso não nasceu agora. Foi sendo construído, camada por camada, inclusive por aqueles que hoje denunciam a deriva.
Há, portanto, uma contradição difícil de ignorar: quem antes fechava as portas da cabine agora reclama da falta de acesso ao comando.
Isso não invalida o alerta atual. O mar está, de fato, agitado. Há forças externas tentando sequestrar a embarcação, há interesses cruzados no horizonte e há riscos reais de naufrágio político. Mas o diagnóstico só será completo quando incluir a própria responsabilidade na construção desse cenário.
Sem isso, a crítica perde densidade e se aproxima mais de uma disputa por espaço no convés do que de um esforço real de reorganizar a viagem.
O desafio que se impõe não é apenas retomar o leme, mas reaprender a navegar coletivamente. Isso exige mais do que apontar erros alheios — exige reconhecer os próprios.
Porque, no fim das contas, nenhum barco se perde apenas por causa da tempestade. Muitas vezes, ele já vinha se desviando bem antes — só que em silêncio, com o mar ainda calmo e poucos dispostos a questionar a direção.
Este texto é uma reflexão dirigida àqueles e àquelas que se indignam com o destino de um certo barco, identificado pelo prefixo PT13.
Um abraço fraterno deste marinheiro, que embarcou ainda nos primeiros ventos, em 1987, e que também navegou sob o comando da mesma capitã, conhecendo de perto tanto os dias de mar aberto quanto os silêncios da cabine.
